Legal mora! mas nem tanto…

Por Carlos Gutierrez Cerqueira

Existe na gíria paulista uma expressão que traduz muito bem quando achamos que alguma coisa é muito boa: legal mora! Assim falamos da internet, dos benefícios proporcionados por ela. A começar pela troca de e‐mails, as cartas eletrônicas, que, bem ou mal, hoje faz até pessoas mal alfabetizadas escreverem para se comunicar com parentes e amigos. Há quem prefira ainda o celular, garantia da comunicação imediata. Mas é um fato reconhecido: a troca de e‐mails está ajudando as pessoas a cada dia escrever mais e talvez melhor. Outro benefício que nos proporciona é o da possibilidade de escrever e divulgar o que estamos pensando ou fazendo, seja participando de grupos familiares ou de amigos, ou de colegas de trabalho, ou ainda respondendo a enquetes que provocam a participação dos internautas sobre os mais variados assuntos, estando o futebol, a fofoca sobre os artistas e a política entre os assuntos preferidos do público. Outra via disponibilizada pela internet são os blogs (de que também faço uso aqui), onde reunimos escritos de diversa natureza, cada qual desenvolvendo escritos de conformidade com seus interesses, estudos, profissões, etc. etc. Não sei por quanto tempo desfrutaremos dessa liberdade e autonomia a custos relativamente baixos.

Como tudo o mais, nos começos o desfrute é mais democrático, ainda não sujeito a normas regulamentadoras, a tributação abusiva e a mecanismos de censuras que por ventura venham a sobrevir de alegados e nem sempre comprovados danos morais ou em prejuízo de interesses particulares ou grupais, por vezes bastante poderosos e capazes de cercear ou mesmo impedir a livre circulação desses escritos que hoje divulgamos por esses meios, gratuitos ou pagos. A conjuntura ainda nos é favorável não só por ser um fenômeno universal como por enquanto vige em nosso país, sem grandes alterações mutiladoras, a Constituição “Cidadã” de 1988, de maneira que os ventos ainda favorecem a ampla liberdade de pensamento e expressão. Valorizemos pois essa nossa democracia, tão recente e ainda imatura e que alguns de nós, que vivemos boa parte de nossas vidas sob a ditadura militar, tememos perde‐la novamente.

Não custa muito caro ter‐se um desses meios de divulgação propiciados pela internet. Basta seguir as instruções e, pronto, cria‐se o blog, adaptado ao seu propósito e estilo; isso basta para começar a escrever. O difícil é fazer os leitores se interessar. Precisamos ir atrás, convidá‐los a ler, e ter a esperança de que leiam mesmo. Melhor, como me diz o meu mais novo velho amigo Duprat, nos atermos ao prazer de escrever e colocar nas mãos dos deuses e deusas do destino e da sorte o eventual interesse que nossos escritos possam despertar nos amigos, colegas e possíveis curiosos, com os quais teremos talvez a oportunidade de confrontar ou concertar nossas opiniões acerca dos assuntos que tratamos nos textos que produzimos. A rigor, embora devemos sempre nos preocupar em nos fazer entender para a média dos leitores, sabemos que escrevemos mesmo é para um número pequeno de indivíduos com os quais convivemos (profissionalmente), quer comunguem de nossas ideias ou não. É coisa própria dos seres viventes… que pensam. Na verdade, somos geralmente mais estimulados a escrever devido a oposição e confrontação de ideias do que das eventuais concordâncias, em razão das quais lemos, pesquisamos, produzimos e debatemos. E elegemos a verdade(uso o termo na sua acepção mais simples e direta, da conformidade com os fatos) com a realidade. como propósito e objetivo desses embates, qualquer que seja a natureza do objeto pelo qual nos deixamos envolver.

Há quem se preocupe, além de publicar seus próprios escritos, em proporcionar a colegas de profissão, nesse mesmo espaço internético, oportunidade para que divulguem os produtos de seu labor. Na área acadêmica, foi talvez iniciativa pioneira o site criado pelo Professor John Manuel Monteiro(Os índios na História do Brasil >www.ifch.unicamp.br/ihb) autor do livro Negros da terra: índios e bandeirantes nas origens de São Paulo – exemplo de profissional infelizmente falecido precocemente, dedicado à pesquisa indigenista que, entre outras atividades, se propôs a divulgar as atividades que desenvolvia em torno do tema, inclusive as de seus alunos, colegas e militantes, acadêmicos ou não. (ver a respeito artigo de Maria Regina Celestino de Almeida – John Manuel Monteiro (19562013): um legado inestimável para a Historiografia – in Revista Brasileira de História Online version ISSN 18069347 Revista Brasileira de História. vol.33 no.65 São Paulo     2013 > http://dx.doi.org/10.1590/S010201882013000100017 Universidade Federal Fluminense (UFF), Centro de Estudos Gerais, Departamento de História. Campus Gragoatá, Bloco O, 5º andar, sala 503, Gragoatá. 24210‐350 Niterói – RJ – Brasil.) Prática ainda mais generosa encontramos bem antes do advento da internet, com a Revista de História especialmente no período em que era dirigida pelo saudoso professor Eurípedes Simões de Paula, abrindo espaços a todos quanto desejassem colaborar, distribuindo os artigos por temas e secções de variadas áreas, constituindo publicação utilizada amplamente pelos professores da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, e também pelos pós‐graduandos, aspirantes à carreira acadêmica, que dela se valiam para divulgar suas pesquisas, procedimento que se estendia inclusive para os ainda meros bacharelandos, e não somente aos da área de História, proporcionando aos estudantes das áreas de Geografia, Sociologia, Letras e Filosofia o mesmo acesso, servindo desse modo como um primeiro estímulo à futura e incerta carreira de pesquisador. Permanecendo ainda no âmbito das ditas Ciências Humanas, a Revista Acrópole parece‐me ter desempenhado papel semelhante que, muito embora se orientasse a área mais restrita do projeto arquitetônico, tornou‐se veículo privilegiado de discussão sobre o caráter e a função social do arquiteto, e com ele o da arquitetura moderna que ajudou a implantar no país, acolhendo contribuições diversas, cujos protagonistas nem sempre manifestavam opiniões e posições convergentes mas que alimentavam permanentemente o debate(Ver nesse sentido artigo de Miguel Antônio Buzzar e Maísa Fonseca de Almeida – Um especial dedicado a arquitetos. Arquitetura Moderna no IV Centenário de São Paulo. Nele analisam edições especiais da Revista Acrópole: As Revistas de arquitetura no Brasil tiveram um papel significativo na discussão dos rumos da profissão de arquiteto. Inicialmente, comprometidas com as concepções ecléticas e neocoloniais, a partir dos anos 1930, acabaram por contribuir para com a formação da Arquitetura Moderna Brasileira. Dentre as Revistas de Arquitetura, a Acrópole, por sua longevidade – 1938 a 1971 ‐ e por sua linha editorial marcada pela pluralidade, constitui‐se em um valioso documento do processo de formação e consolidação da Arquitetura Moderna no Brasil e do registro da diversidade de sua produção, atualmente esmaecida, porquanto a historiografia privilegiou uma ou outra corrente arquitetônica, em detrimento das várias linguagens modernas que se constituíram > www.docomomo.org.br/seminario%208%20pdfs/181.pdf ). Desempenharam, sem dúvida, essas revistas um papel enriquecedor, auxiliar ao desenvolvimento de pesquisas historiográficas e aos projetos de arquitetura moderna, além de contribuir para a criação de um etos cultural às respectivas comunidades de seu tempo.

Não é excessivo lembrar outro bom exemplo daqueles idos tempos: a Revista do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. Embora constituísse veículo do órgão de preservação, criado com a finalidade precípua de divulgar os trabalhos em realização em todo o país, procurava angariar a simpatia da intelectualidade brasileira de modo a contribuir com os  Os índios na História do Brasil (www.ifch.unicamp.br/ihb) propósitos almejados de fomentar a pesquisa sobre os monumentos, aprofundando o conhecimento acerca deles, constituindo ao longo dos anos um compêndio sobre o patrimônio histórico e artístico invejado até pelos similares estrangeiros. O conhecido posicionamento de um de seus mais ilustres representantes, avesso à contribuição de historiadores para as pesquisas voltadas à restauração de monumentos, não constituiu obstáculo à ampla participação desses profissionais na Revista, assim também nas Publicações, nas quais os estudos históricos estão agraciados com generosos espaços.

Haverá outros exemplos nesse sentido, certamente.( A Defesa Civil do Patrimônio Histórico ‐ Defender (http://defender.org.br), p. ex. Desde 2002 com sede em Cachoeira do Sul/RS; é associação civil com atuação nas áreas da cultura, patrimônio histórico e artístico, turismo cultural e social, meio ambiente e cidadania, e entre outras atividades, divulga escritos de instituições associadas, de sócios e colaboradores. Outro exemplo é o da Casa do Patrimônio do Vale do Ribeira (www.patrimoniovaledoribeira.org), cujo responsável Beto Bertagna tomou a iniciativa de divulgar textos elaborados pelos técnicos do IPHAN sobre bens culturais materiais e imateriais tanto daquela região como de outras regiões de São Paulo e do Brasil, tendo recebido inclusive recentemente colaboração do Superintendente do Paraná, José La Pastina, esclarecedora notícia sobre a fabricação de telhas no período Colonial.)

Mas também há exemplos contrários a tal prática. Hoje, as contendas intelectuais antes favorecem a criação de espaços fechados, clubísticos ou, numa melhor expressão interclubísticos, reunindo e publicando artigos cujos autores, menos talvez por uma identificação ideológica por vezes obscura, produzem em sintonia com linhas de pesquisas convergentes, citando‐se reciprocamente, defendendo pontos de vista mais ou menos comuns, os quais se revelam sempre mui generosos ou condescendentes para com aqueles que, se não chegam a se identificar com a visão de mundo de seus criadores, contribuem todavia com os seus propósitos digamos editoriais.

Tal prática não se encontra somente entre os acadêmicos e seus pós‐graduandos. A própria revista do órgão federal de preservação, embora reserve bom espaço à historiografia e às disciplinas afins, estabelece atualmente critérios seletivos que priorizam mais a participação acadêmica do que a das áreas técnicas do próprio Instituto, notadamente das superintendências que entretanto são as principais responsáveis pela proposição e execução da maioria das ações de preservação. Digo isso porque as coisas parecem estar em desacerto, não havendo comunicação entre o conjunto todo dos técnicos espalhados pelas unidades da federação e os dessa área central, muito menos espírito colaborativo entre ambas. Mas já houve! O diálogo teórico e técnico, digamos assim, é excludente para com aqueles a quem, ao nosso ver, deveriam estar orientadas as ações de divulgação; os atuais responsáveis, embora concedam espaço a alguns técnicos que partilham de suas ideias e propósitos, deixam contudo de contemplar a grande maioria daqueles que efetivamente colocam as mãos na massa, propõem e realizam o trabalho institucional efetivo.O fato de hoje se ter acesso via internet a este veículo de  divulgação do órgão de preservação nada altera o teor dessas nossas considerações; muito pelo contrário. Enquanto isso, estudos e pesquisas sobre bens materiais e imateriais encontram‐se arquivados nas Superintendências, ignorados, sem perspectiva de publicação. Ou seja, não se valoriza a produção técnica do próprio Instituto. A relação com as universidades, a produção dos acadêmicos, atualmente tem preferência sobre a do corpo técnico. ( Um número não pequeno de técnicos em preservação hoje opta pelos cursos de pós‐graduação, à procura de titulação (abandonando depois as carreiras que podiam desenvolver nos órgãos de origem). Encontram todavia grande facilidade para divulgar suas pesquisas sobre patrimônio arquitetônico, restauração, artes, história, etc., proporcionada pelos sites e publicações das faculdades e universidades onde realizam seus cursos.)

Desse modo, as atividades hoje possibilitadas pela Internet se por um lado favorecem grandemente a difusão de ideias, a diversidade de pesquisas de graus variados de interesse, e de intercâmbio enorme entre seus protagonistas, por outro não está imune a interferência de grupos que procuram controlar, no âmbito das instituições públicas, não propriamente o que se produz, mas sobre tudo o que julgam merecedor de divulgação. Ignoram uma boa parcela dessa produção técnica que parece se revelar, aos seus olhos, de pouca ou nenhuma qualidade. Será mesmo? A nós tal atitude representa conduta equivocada, para dizer o mínimo. Equivale aos mecanismos tradicionalmente utilizados pelas elites conservadoras, manipuladoras e seletistas, embora se valham de modernos veículos de divulgação e publicação que, assim, constituem uma expressão não tão democrática como desejam transparecer aos desavisados. Em parte porque organizado por indivíduos, grupos e empresas privadas que imprimem a política própria aos seus interesses (contra os quais nada podemos fazer dada a natureza mesma desses empreendimentos editoriais) e da parte das instituições públicas na medida em que nelas se verifica o afunilamento das decisões sobre o que publicar, confiadas a um número relativamente restrito de pessoas, pouco representativas do conjunto dos profissionais que nelas atuam, mas que estabelecem normas pouco afeitas às práticas das instituições, e que tolhem a sua participação nesses meios de publicação, sem contudo esconder seu viés ideológico autoritário e excludente.

Julho 2014

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