ISA lança livro Inventário Cultural Quilombola do Vale do Ribeira

O projeto do inventário teve início em 2009 com a capacitação de agentes culturais quilombolas para aplicar a metodologia do INRC (Inventário Nacional de Referências Culturais), elaborada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artísitico Nacional (Iphan). Depois de três anos de conversas,oficinas, entrevistas e filmagens, os resultados finalmente vêm a público por meio desta publicação. (Faça aqui o download)

O levantamento realizado identificou 180 bens culturais: 29 Celebrações, 24 Formas de Expressão, 23 Ofícios e Modos de Fazer, 75 Lugares e 29 Edificações. A incidência destes bens culturais foi analisada em cada um dos 16 quilombos. Os verbetes apresentados no livro trazem descrições e sínteses comparativas do material oriundo dos 16 territórios e permite visualizar recorrências e variações nos modos de fazer, nos nomes atribuídos localmente, nas ênfases a determinados aspectos do bem cultural.

Ao organizar e sistematizar os resultados desta pesquisa, buscou-se privilegiar as falas diretas dos sujeitos que contribuíram de forma decisiva para tornar acessível ao público em geral um pouco mais do cotidiano e da história dos quilombos. Os quilombolas são co-autores do livro. (Veja no final o quadro com um resumo de cada texto).

O projeto conta também com um registro audiovisual de 120 minutos de duração que foi lançado na ocasião do seminário final do projeto (Saiba mais).

Foi também neste seminário que as comunidades ali reunidas definiram que o sistema agrícola – formado por diversas práticas e conhecimentos ligados ao cultivo, além de expressões culturais associadas – consiste no bem cultural mais importante e compartilhado entre as comunidades quilombolas do Vale do Ribeira, sendo necessário, portanto, implementar ações para a sua salvaguarda. A solicitação de registro do sistema agrícola quilombola foi formalizada junto ao Iphan e o processo aguarda instrução para tramitar.

Patrimônio ameaçado

Uma parte considerável dos bens culturais quilombolas (37% ) encontram-se na condição de memória e ruína, ou seja, deixaram de ocorrer, ou ocorrem de maneira precária, fragmentada ou espaçada no tempo. Embora as mudanças façam parte da dinâmica cultural, o declínio de práticas estruturantes do modo de vida quilombola (como os puxirões de trabalho realizados em grande tarefas agrícolas) é motivada pela insegurança territorial e por uma legislação ambiental que proíbe a roça de coivara.

Há também conhecimentos tradicionais que são cada vez mais desvalorizados pelas gerações mais jovens, coincidindo com o advento das escolas. Como exemplo, pode-se indicar a fabricação de artefatos utilizados no cotidiano doméstico e a construção de casas com recursos da floresta, cada vez mais raros. As atividades de canoeiros, benzedores e curandeiros também estão neste conjunto.

Destaques

As celebrações identificadas revelam a influência do catolicismo popular na vida religiosa das comunidades. A corrida da Bandeira do Divino Espírito Santo é a celebração mais difundida. São também bastante comuns as festas em homenagem aos santos padroeiros (Nossa Senhora Aparecida, Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, São Miguel Arcanjo, São Benedito, São José, Bom Jesus, Santo Antônio, Santa Catarina, São Vicente de Paula e Santa Luzia). A procissão noturna da Recomendação das Almas que já foi muito praticada, hoje é celebrada em apenas duas comunidades (Saiba mais).

Diversas danças praticadas nos bailes de mutirão e bailes após as celebrações religiosas não ocorrem mais, ou ocorrem raramente. Dança do chapéu, cobrinha, macacada, rancheira e xote balanceado não são mais encontradas em nenhuma comunidade. O fandango batido resiste em duas comunidades, e a Dança de São Gonçalo é encontrada com vigor em dois quilombos de Iporanga. Os cantos de funeral (chamados incelências) embora conhecidos em muitos quilombos, não são entoados em nenhuma comunidade. Narrativas míticas, fábulas e histórias que integram a literatura oral das comunidades ainda são contadas pelos mais velhos, aparecendo como modo de transmissão de conhecimentos e entretenimento.

A categoria dos ofícios e modos de fazer consiste na mais íntegra das categorias do inventário, revelando a forte relação das comunidades quilombolas do Vale do Ribeira com a atividade agrícola e de forma geral com atividades de produção da vida cotidiana (Saiba mais). Destacam-se a importância e difusão de bens culturais como: Modo de Fazer Roça, Processamento dos alimentos (arroz, milho, cana, mandioca), Ofício de artesão e Modo de fazer casa de pau a pique. Entre os bens culturais em declínio estão os ofícios de parteira e benzedor, a produção de canoas e seu uso como meio de transporte e para atividade de pesca.

Os lugares identificados como bem cultural veiculam significados e memórias inscritos no espaço territorial das comunidades. No conjunto, destaca-se a importância dos rios – Ribeira, Pilões, São Pedro, Pedro Cubas, Nhunguara e Peropava – e das áreas de cultivo, antigas e recentes, e caminhos de tropa, por onde perambulavam as pessoas antes da abertura das estradas de acesso aos quilombos. Apareceram também lugares como grotas, morros e pedras que servem de referência topográfica.

As edificações identificadas são aquelas que estão associadas aos bens imateriais inventariados e consistem em igrejas, casas de farinha e ruínas de obras edificadas no período da escravidão. Algumas comunidades incluíram também centros comunitários pela importância que eles assumem na condução de assuntos coletivos.

No livro, o  primeiro texto, “Comunidades Quilombolas e o Vale do Ribeira”, procura situar o Vale do Ribeira, de forma breve, contando a história de sua ocupação, a chegada dos negros trazidos da África para trabalhar como escravos na mineração, e posteriormente na agricultura. O surgimento dos primeiros quilombos que se configuram nos dias atuais em um verdadeiro corredor socioambiental com comunidades encravadas no meio da mais importante área contínua de remanescente de Mata Atlântica conservada do país.

O segundo texto, “Patrimonialização de bens culturais”, descreve a política pública de patrimônio imaterial, indicando diretrizes fundamentais para implementação de ações de salvaguarda e o reconhecimento público (do Estado e da sociedade) do valor patrimonial de conhecimentos e práticas tradicionais.

O terceiro texto, “O inventário passo a passo”, descreve as razões dos quilombolas para a construção e implementação do projeto para o inventário. A metodologia participativa aplicada para a coleta, validação das informações, tomada de decisões e os encaminhamentos após os resultados validados.

O quarto texto, “Panorama do patrimônio cultural quilombola no Vale do Ribeira”, apresenta a situação atual dos bens culturais quilombolas levantados nas 16 comunidades participantes do projeto a partir de sua condição, seguindo a classificação definida pela metodologia do INRC-Iphan, segundo seu estado de conservação: íntegro, memória ou ruína. Chama a atenção o fato de que a maioria dos bens culturais inventariados esteja classificado como íntegro. Por outro lado, é possível verificar que se trata de uma situação transitória, precária e com riscos, na medida em que muitos destes bens são conhecidos ou praticados por poucas pessoas das comunidades.

Os textos seguintes, organizados por categoria, apresentam verbetes com a descrição dos bens culturais identificados.
Na sessão anexa intitulada Bens culturais por comunidade, o leitor encontrará informações sobre os quilombos incluídos no escopo do projeto e a lista de bens culturais específica de cada comunidade.

O livro está disponível em formato PDF no endereço http://www.socioambiental.org/sites/blog.socioambiental.org/files/publicacoes/pdf-publicacao-final_inventario.pdf

Veja os vídeos :

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